Inicio, neste dia e nesta hora, o relato histórico de minha experiência com o Atemporal.
Atemporal, certa feita, cansado de sua enfadonha eternidade, procurou-me com um pedido de socorro. Queria que o ajudasse a superar aquela ruindade de nada ter a fazer todo o sempre para sempre. Ouvi-o com empenho. Pensei: será que ele está apenas reclamando ou quer mesmo uma sugestão? E fiz essa pergunta a ele. Inicialmente ficou zangado, mas, em seguida, deu-se conta de que desejava realmente algo que lhe ocupasse a mente, pois sentia-se infinitamente só.
E foi assim, para ajudar Atemporal a não apoquentar-se com a solidão, que iniciei a jornada que passo a narrar aqui.
Antecedentes
Sempre que Atemporal vem aqui, tenho calafrios. É que receio ofendê-lo com palavras inadequadas. Saibam: Atemporal é bastante temperamental. Não é preciso muita coisa para que fique irado. Uma vez, saiu daqui cuspindo fogo porque eu disse que ele devia se ocupar de algo mais útil do que ficar vagando na imensidão do nada. Mas esse nada dá voltas. Eis que ele retorna justamente com esse pedido de ajuda para se ocupar de algo e não do nada. Aceitei, claro. Até porque eu também tenho nada a fazer. Só que ele, coitado, não consegue conviver bem com o vazio. Aí vem ele.
- Olá, meu caro Faber!
- Olá, Atemporal.
- Então, por onde começamos?
- Hum… Não sei bem, mas que tal se falasses um pouco sobre o que desejas fazer? Ou talvez não o que desejes fazer, mas o que queiras satisfazer. Por aí. Destramela a língua.
- Eu quero que esse nada total seja preenchido por algo.

- Bem, isso é algo não tão difícil, mas também não tão fácil. Antes de tudo, é preciso que tua vontade de que isso aconteça seja verdadeira e profunda. Procura dentro de teu infinito coração, encontra teu desejo real e aprenderás a transformar teus quereres em algo que afaste o nada.
- E onde está meu infinito coração?
- Uai, e não sabes?
- É claro que não!
- Peço que me desculpes, mas pensei que estivesses mais adiantado em relação ao perceberes a ti mesmo. Pois bem. Quando estás te sentindo só, o que te ocorre?
- Tristeza.
- Então! Busca onde está a tristeza e acharás teu coração.
- Ah! Quão fácil é falares isto! Não sei como fazê-lo. Não podemos simplesmente pular esta parte e ir direto para a afugentação do nada?
- Poder, podemos, mas corremos o risco de não funcionar a contento.
- Que seja, então. Prefiro correr o risco a ter que primeiro encontrar esse tal coração.
Receios
Juro que não gosto muito da ideia de atuar como consultor de Atemporal. Não sei bem por quê. Sua irritabilidade é até tolerável. O que me incomoda é aquela volubilidade, aquela insegurança, aquele desprezo por qualquer antecipação de situações problemáticas que, não pensadas antes, requererão soluções de improviso. Já estou até vendo:
- Atemporal, isto precisa ser mais bem pensado, planejado!
- Que nada! Vamos fazer assim mesmo!

Compreendo por que motivos ele é avesso a qualquer planejamento. Sendo atemporal, não alcança a noção de duração nem de processo das coisas que pretende criar para preencher o nada. Some-se a isto o fato de que vaga no nada absoluto, sem espaço, sem tempo, sem dimensão.
Antecipo muitas dificuldades na consecução deste trabalho.
Quase lá
Se falo em Dia Um, Dia Dois, Dia Três e assim por diante, é porque escrevo bilhões de anos depois dos fatos narrados, quando, peregrinos no tempo e no espaço, os seres humanos inventaram o calendário. Aproveito-me desta inteligente invenção para ordenar em dias a narração de meu trabalho de consultoria realizado quando da criação de tudo quanto há, tanto de material quanto de imaterial.
Pois bem, foi neste terceiro dia, após idas e vindas, que Atemporal chegou até mim cheio de vontade de criar coisas.
- Como estás, meu caro Faber?
- Bem. E tu, Atemporal?
- Estou ótimo. E com uma vontade infinita de extinguir esse vazio preenchendo-o com coisas interessantes.
Estranhei aquele bom humor e aquela disposição exultante. Mas dispus-me.
- Pois bem. Por onde queres começar?
- Não sei, meu caro Faber. Para isso estou aqui: quero tuas ideias.
- Certo, Atemporal. Minha primeira ideia é que elaboremos um plano.
- Plano?
- Sim, um plano de trabalho ou algo assim. Precisas saber, por exemplo, teus objetivos, tuas intenções, tuas metas e outros detalhes mais que são fundamentais para que cries algo realmente interessante. Dize-me: para que queres invadir o nada com as coisas?
- Para que eu possa me livrar do tédio, ora!
- E por que queres te livrar do tédio?
- Hum… Porque desejo me desfazer do nada fazer. Ocupar-me com algo que me requeira sempre.

- Está bem. Imagino que a primeira coisa a ser feita, insisto, é um plano de trabalho. Afastar teu tédio não pode ser o objetivo de algo tão ousado e importante. Pensa num objetivo mais nobre, como, talvez, demonstrar tua inteligência.
- Demonstrá-la a quem, caro Faber?
- Às coisas que irás criar, ora, Atemporal!
- Mas haverão de ter inteligência para perceber minha grandeza e minha sofisticação?
- Se as dotares de tal capacidade, sim.
Após confabular consigo mesmo, emendou:
- Que ótima ideia, Faber! Faremos essas coisas portadoras de inteligência e percepção, para que vejam em mim seu supremo criador.
- É isso.
- Então que comecemos já!