Dia Quatro – O Dilema da Matéria

Postado em Consultor com as tags , , , em 16 16UTC setembro 16UTC 2009 por José Lacerda

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A esfera branco azulada, mesmo tendo alcançado não eclipsar no nada, não inspirava confiança quanto à sua permanência. Atemporal, tendo-a considerado linda, pôs-se logo a tomar providências para que a esfera pudesse se sustentar. Imaginou que, criando mais matéria, realizaria tal intento. E foi assim que, bradando seguidamente fiat mater, logrou encher o nada com toda qualidade de coisas. Mas a única que sustentava alguma forma era a esfera branco azulada, sendo as demais infinitas coisas totalmente instáveis em seus limites.

- Que fazer, Faber? As coisas migram de forma em forma! Não se regularizam.

- Preciso pensar, Atemporal.

Logo que terminei de pronunciar estas palavras, veio-me a ideia de confinar as coisas em formas. Era preciso, então, que Atemporal criasse as formas e as mandasse envolver a matéria. E assim se fez. Mas outro problema surgiu: as coisas, confinadas pelas formas, começaram a desaparecer, como se estivessem sufocadas pelos limites impostos. Desesperado, Atemporal ordenou que as formas desaparecessem, mas ocorreu que, ao eclipsarem no nada, levaram consigo toda a matéria que havia sido criada. Exceto a esfera branco azulada.

Triste e acabrunhado, Atemporal bradou xingamentos.

- Xingar não resolve, Atemporal. Precisas, antes de tudo, de um plano.

- Danem-se os planos, dana-te tu, Faber! Inundarei esse nada de coisas ou não me chamo Atemporal.

Dia Três – Os Primeiros Atos Criadores

Postado em Consultor com as tags , , , em 14 14UTC setembro 14UTC 2009 por José Lacerda

Ah, criar coisas sem planejar: que imprevidência! Mas Atemporal não saberia fazer diferente. Planejar é para quem age no tempo e no espaço, confinado no continuum da duração. Então ele só pode decidir criar coisas no presente, no eterno presente em que vive. E foi assim que, de repente, chegou a mim e vomitou:

- Quero que vejas isto, caro Faber.

Virou-se um pouco para não me acertar e bradou:

- Fiat lux!

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Uma luz branco azulada percorreu a imensidão do nada e riscou o vazio numa velocidade tão intensa que mal pude engolir o susto. Mas logo sumiu no nada. Diríamos hoje que teria durado um bilionésimo de segundo.

- Por quê? – indagou, desapontado, Atemporal.

- Simples, meu caro. Porque não há matéria para dar opacidade às coisas e reter a luz. E nem para refleti-la. Se houvesses me ouvido, não terias criado antes a luz, mas a matéria.

- E o que faço agora?

- Terás que criar coisas materiais.

- Então que seja! – E gritou: Faça-se algo material!

E surgiu uma esfera azulada.

Dia Dois

Postado em 1 em 17 17UTC agosto 17UTC 2009 por José Lacerda

Atemporal não tem a mínima noção do que seja pressa. Não por uma incompetência qualquer, mas por estar mergulhado na atemporalidade. Pressa, saiba-se, é coisa de quem está premido pela duração do tempo. Atemporal tinha era uma gana de ver aquele nada todo cheio de coisas que lhe rendessem glória. Ou que lhe atormentassem com demandas de toda espécie. Tanto fazia. Sua glória se realizaria nesse atendimento permanente.

Iniciamos o segundo dia bastante animados. Ele mais do que eu.

- Faber, o que tens a me sugerir?

- Algumas ideias, Atemporal.

- Pois dize-as.

- Primeiro: deves pensar em um jeito de fazer com que as coisas que vais criar se sustentem por si mesmas, sem ficarem a depender permanentemente de ti. Segundo: tal autossustentação das coisas não pode ser total, mas parcial, de forma que, naqueles quesitos essenciais, dependam totalmente de ti, pois, se não, poderiam querer desprezar-te. Terceiro: tem em mente que, uma vez que cries tais coisas, não terás mais sossego, pois deverás dedicar-te integralmente a não permitir que elas se tornem de tal forma autônomas que te dispensem.

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- Pensas mesmo que isso possa acontecer?

- Tenho certeza. Confia em mim. Uma vez preenchido o nada, terás que manter vigilância permanente sobre todos os processos. Porque as coisas engendram integrações que nem tu nem eu podemos prever ou controlar. Portanto, se vais mesmo criá-las, faze com que, por princípio, sejam finitas e limitadas pelo espaço. Mesmo assim, continua vigiando, pois delas se pode esperar até que inventem meios para se livrarem da prisão em que as colocarás. Melhor é que jamais pudessem sequer imaginar que se encontram nessa condição.

- Pareces-me por demais temeroso em relação às coisas, caro Faber. Vou simplesmente fazê-las e dedicar-me às suas necessidades, ao mesmo tempo em que me rendem elogios e glória, reconhecidas que serão por eu lhes ter chamado à existência.

- Engano teu, Atemporal. Como és ingênuo!

Dia Um

Postado em 1 em 17 17UTC agosto 17UTC 2009 por José Lacerda

Inicio, neste dia e nesta hora, o relato histórico de minha experiência com o Atemporal.

Atemporal, certa feita, cansado de sua enfadonha eternidade, procurou-me com um pedido de socorro. Queria que o ajudasse a superar aquela ruindade de nada ter a fazer todo o sempre para sempre. Ouvi-o com empenho. Pensei: será que ele está apenas reclamando ou quer mesmo uma sugestão? E fiz essa pergunta a ele. Inicialmente ficou zangado, mas, em seguida, deu-se conta de que desejava realmente algo que lhe ocupasse a mente, pois sentia-se infinitamente só.

E foi assim, para ajudar Atemporal a não apoquentar-se com a solidão, que iniciei a jornada que passo a narrar aqui.

Antecedentes

Sempre que Atemporal vem aqui, tenho calafrios. É que receio ofendê-lo com palavras inadequadas. Saibam: Atemporal é bastante temperamental. Não é preciso muita coisa para que fique irado. Uma vez, saiu daqui cuspindo fogo porque eu disse que ele devia se ocupar de algo mais útil do que ficar vagando na imensidão do nada. Mas esse nada dá voltas. Eis que ele retorna justamente com esse pedido de ajuda para se ocupar de algo e não do nada. Aceitei, claro. Até porque eu também tenho nada a fazer. Só que ele, coitado, não consegue conviver bem com o vazio. Aí vem ele.

- Olá, meu caro Faber!

- Olá, Atemporal.

- Então, por onde começamos?

- Hum… Não sei bem, mas que tal se falasses um pouco sobre o que desejas fazer? Ou talvez não o que desejes fazer, mas o que queiras satisfazer. Por aí. Destramela a língua.

- Eu quero que esse nada total seja preenchido por algo.

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- Bem, isso é algo não tão difícil, mas também não tão fácil. Antes de tudo, é preciso que tua vontade de que isso aconteça seja verdadeira e profunda. Procura dentro de teu infinito coração, encontra teu desejo real e aprenderás a transformar teus quereres em algo que afaste o nada.

- E onde está meu infinito coração?

- Uai, e não sabes?

- É claro que não!

- Peço que me desculpes, mas pensei que estivesses mais adiantado em relação ao perceberes a ti mesmo. Pois bem. Quando estás te sentindo só, o que te ocorre?

- Tristeza.

- Então! Busca onde está a tristeza e acharás teu coração.

- Ah! Quão fácil é falares isto! Não sei como fazê-lo. Não podemos simplesmente pular esta parte e ir direto para a afugentação do nada?

- Poder, podemos, mas corremos o risco de não funcionar a contento.

- Que seja, então. Prefiro correr o risco a ter que primeiro encontrar esse tal coração.

Receios

Juro que não gosto muito da ideia de atuar como consultor de Atemporal. Não sei bem por quê. Sua irritabilidade é até tolerável. O que me incomoda é aquela volubilidade, aquela insegurança, aquele desprezo por qualquer antecipação de situações problemáticas que, não pensadas antes, requererão soluções de improviso. Já estou até vendo:

- Atemporal, isto precisa ser mais bem pensado, planejado!

- Que nada! Vamos fazer assim mesmo!

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Compreendo por que motivos ele é avesso a qualquer planejamento. Sendo atemporal, não alcança a noção de duração nem de processo das coisas que pretende criar para preencher o nada. Some-se a isto o fato de que vaga no nada absoluto, sem espaço, sem tempo, sem dimensão.

Antecipo muitas dificuldades na consecução deste trabalho.

Quase lá

Se falo em Dia Um, Dia Dois, Dia Três e assim por diante, é porque escrevo bilhões de anos depois dos fatos narrados, quando, peregrinos no tempo e no espaço, os seres humanos inventaram o calendário. Aproveito-me desta inteligente invenção para ordenar em dias a narração de meu trabalho de consultoria realizado quando da criação de tudo quanto há, tanto de material quanto de imaterial.

Pois bem, foi neste terceiro dia, após idas e vindas, que Atemporal chegou até mim cheio de vontade de criar coisas.

- Como estás, meu caro Faber?
- Bem. E tu, Atemporal?
- Estou ótimo. E com uma vontade infinita de extinguir esse vazio preenchendo-o com coisas interessantes.

Estranhei aquele bom humor e aquela disposição exultante. Mas dispus-me.

- Pois bem. Por onde queres começar?
- Não sei, meu caro Faber. Para isso estou aqui: quero tuas ideias.
- Certo, Atemporal. Minha primeira ideia é que elaboremos um plano.
- Plano?
- Sim, um plano de trabalho ou algo assim. Precisas saber, por exemplo, teus objetivos, tuas intenções, tuas metas e outros detalhes mais que são fundamentais para que cries algo realmente interessante. Dize-me: para que queres invadir o nada com as coisas?
- Para que eu possa me livrar do tédio, ora!
- E por que queres te livrar do tédio?
- Hum… Porque desejo me desfazer do nada fazer. Ocupar-me com algo que me requeira sempre.

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- Está bem. Imagino que a primeira coisa a ser feita, insisto, é um plano de trabalho. Afastar teu tédio não pode ser o objetivo de algo tão ousado e importante. Pensa num objetivo mais nobre, como, talvez, demonstrar tua inteligência.
- Demonstrá-la a quem, caro Faber?
- Às coisas que irás criar, ora, Atemporal!
- Mas haverão de ter inteligência para perceber minha grandeza e minha sofisticação?
- Se as dotares de tal capacidade, sim.

Após confabular consigo mesmo, emendou:

- Que ótima ideia, Faber! Faremos essas coisas portadoras de inteligência e percepção, para que vejam em mim seu supremo criador.
- É isso.
- Então que comecemos já!